Oi pessoal!
Os leitores com boa memória devem lembrar de uma visita frustrada a Saint-Denis há uns oito meses, em um dia quente e ensolarado de verão. Na ocasião, prometi que voltaria à Basilique e que a visitaria de verdade, o que fiz neste domingo de Páscoa à tarde.
O tempo não estava tão bom quanto o daquele dia de verão, mas como a visita é estritamente interna, isso não foi um grande problema.
Nós, jovens de menos de 25 anos residentes na França, temos uma verdadeira mordomia com essa história de entrada gratuita a museus e monumentos nacionais. Além da entrada, podemos inclusive participar de uma visita guiada, em geral por pessoas muito bem instruídas e simpáticas, que me dão vontade de estudar um pouco mais de História. Com exceção do guia da Conciergerie, que era um pouco estranho, todas as outras realizadas foram nota 20 (porque aqui a base da nota é 20)! E arrisco dizer que essa de Saint-Denis foi a melhor até o momento.
Começamos com um pouco de arquitetura, com a definição de basílica (construída sobre o túmulo de um santo) e uma apresentação de nomenclatura básica de catedrais, e passamos para a a história de Saint-Denis, o então santo padroeiro da França (hoje falar algo do gênero pode até ser visto como ofensa por aqui, tal o nível de laicismo neste país), ilustrada nos belos vitrais da Basilique. Considerado o primeiro bispo de Paris, ele foi martirizado por conta de sua popularidade (época em que o catolicismo não era bem visto entre os romanos) e decapitado. De acordo com a lenda, depois de tal tragédia Denis caminhou com sua cabeça em suas mãos, em direção ao norte de Paris, atravessando oMontmartre (Mont de Martyr) até chegar à atual Saint-Denis. Chegando lá, ele finalmente "morreu".
E foi sobre seu túmulo que a basílica foi edificada no século V, funcionando ao mesmo tempo como abadia beneditina, catedral e, desde o século VI, também como necrópole real. Saint-Denis passou a ser o padroeiro da França e se acreditava que sendo enterrados lá os reis contariam com sua proteção eterna. Foi assim que ela se tornou uma necrópole única no mundo, onde a arte funerária pode ser vista em vários estilos. Arte esta que nos foi apresentada com muitos detalhes. No início, as tumbas eram ornamentadas muito tempo depois da morte do monarca e como não havia retratos dos mesmos, a fisionomia de todos era bem "homogênea". Além disso, detalhes como a ação da gravidade sobre as dobras das roupas de pessoas deitadas não eram levados em conta. Depois de muita evolução, chegou a um ponto em que os monarcas encomendavam suas tumbas antes de morrerem, o que obviamente também levou a representações não muito fiéis de sua fisionomia, visto que "melhoras" eram exigidas na hora de esculpir.
A história da Basilique depois de sua construção também é bastante interessante. O primeiro rei a ser enterrado em Saint-Denis foi Dagobert, mas apenas a partir de Hugues Capet, primeiro da dinastia Capetiana, que isso passou a ser feito sistematicamente. É curioso notar que os representantes da dinastia dos Bourbon, uma das mais célebres da monarquia francesa, não possuíam grandes tumbas, apenas simples caixões em chumbo e madeira. Isso porque, de acordo com eles, a imagem que a população deveria guardar era de seu reinado, por isso a quantidade de estátuas equestres espalhadas pelo país, esquecendo assim sua morte.
Um dos acontecimentos mais marcantes para a Basilique foi a Revolução, assim como para diversos outros símbolos da monarquia e da religião. Pretendia-se eliminar todos os seus traços, mas felizmente, ao mesmo tempo, desenvolveu-se uma mentalidade de preservação do patrimônio, assim as tumbas foram preservadas. Mas não os cadáveres, que foram todos exumados e enterrados em uma mesma vala, e nem a catedral, que teve toda sua estrutura de chumbo retirada (para fabricar armas). Bonaparte até tentou em seguida restituir os corpos às devidas tumbas, mas aparentemente eles não estavam mais identificáveis e foi assim que surgiu a ideia de um ossuário real. Ou seja, todas as tumbas estão atualmente vazias. Com algumas exceções bem particulares. A primeira é de Marie-Antoinette, que havia sido guilhotinada e seu corpo estava no cimetière de la Madeleine em Paris, encontrado com a ajuda de uma testemunha visual. Além dela, o último rei francês, Louis XVIII também está lá, devidamente identificado (foi ele inclusive que "achou" Marie-Antoinette), mas curiosamente não foi o último a entrar em Saint-Denis. O sortudo foi Louis XVII, que morreu ainda criança, durante a Revolução, criando o mistério do "Dauphin perdido". Em 2004, depois de um teste de DNA, foi comprovado que um certo coração (longa história, como vocês devem imaginar) lhe pertencia, assim realizou-se uma cerimônia especial em Sant-Denis para acolhê-lo. Os experts em Revolução Francesa podem me perguntar: e o pobre coitado do Louis XVI, marido de Marie-Antoinette? Bem, a história é engraçada: Louis XVIII procurou pelos dois, mas apenas a rainha fora encontrada. Como ele estava com uma cerimônia de restituição dos corpos a Saint-Denis marcada, não podendo decepcionar seus súditos, o que ele decidiu fazer? Simplesmente pegar um zé ninguém e colocar no lugar de seu irmão. E até hoje não se sabe onde foi parar o pobre rei guilhotinado.
Bem, para terminar, algumas fotos, incluindo de seus belos vitrais.
Fachada, Basilique de Saint-Denis
Vitrais, Basilique de Saint-Denis
Vitrais, Basilique de Saint-Denis
Tumbas dos Bourbon, Basilique de Saint-Denis
Lista de monarcas franceses, Basilique de Saint-Denis
Coração de Louis XVII, Basilique de Saint-Denis
Tumba construída para guardar "entranhas", Basilique de Saint-Denis
Tumba de François I, Basilique de Saint-Denis
Louis XVI e Marie-Antoinette, Basilique de Saint-Denis
Estandarte francês, Basilique de Saint-Denis
Vitrais (Saint-Denis com sua cabeça nas mãos), Basilique de Saint-Denis
Tumba de Louis XII e Anne de Bretagne, Basilique de Saint-Denis
Vitrais, Basilique de Saint-Denis
À bientôt!!!
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