terça-feira, 7 de setembro de 2010

07/08/2010: Bodø - Moskenes - Å

Oi pessoal!

9º dia de viagem: círculo, peste, frio, pata do lince, caminhada, Elísios, palafitas, cabeça de bacalhau.

Quando acordei no trem, já estava perto de Bodø e um pouco acima do Círculo Polar Ártico, a cerca de 67ºN. Números significam muito para mim, e a latitude máxima a que cheguei (68º25'14''N em Narvik) é algo de que tenho muito orgulho. Talvez estejam perguntando por que fui parar tão longe assim. Acho que as fotos que mostrarei daqui a pouco dispensam maiores explicações. O nome da região é Lofoten, um arquipélago no extremo norte da Noruega, onde há sim civilização, principalmente de pescadores de bacalhau.
Para chegar a Lofoten, não há muitas opções. Se você tem um carro, pode ir de balsa ou via Narvik. De ônibus, apenas via Narvik. Dá também para ir de avião, em escassos e caros voos que partem de Bodø ou Tromsø (ainda mais ao norte). O trem não chegou lá (trem em arquipélago?). A última possibilidade é ir como passageiro de balsa, que parte de Bodø e vai até Moskenes. Foi por isso que fui parar em Bodø.
Assim que entrei na fila dos passageiros do ferry, notei que um casal de franceses me acompanhava desde Geiranger, na Golden Route, passando por Åndalsnes e por Trondheim. Quando entramos no barco, começamos a conversar. Obviamente eles se impressionaram quando viram um brasileiro com cara de japonês falando em francês com eles perto do pólo norte. Mas este não seria nosso último encontro.
O vento estava bastante forte durante o trajeto, o que dificultava as fotos, pois ele estava espirrando água. O tempo estava bem razoável: saindo de Bodø estava nublado, aí o tempo abriu no meio do caminho e, chegando a Moskenes, fechou um pouco de novo. No total, o trajeto dura cerca de 3h, durante as quais conversei um pouco com os casal. Coincidentemente, notei que o francês estava lendo Paulo Coelho. Não sei se ele reparou a coincidência, pois não comentou nada comigo. Chegamos a Lofoten por volta das 13h30.
Lofoten, como já disse, é um arquipélago, mas o que o torna especial é que as ilhas são montanhas, como os fiordes. Ao contrário dos fiordes, em que as montanhas formam cordilheiras, entre as quais o mar avança em direção ao continente, em Lofoten o que se vê são montanhas isoladas. Se eu tivesse que escolher os lugares mais bonitos que visitei até hoje, Lofoten certamente estaria entre os primeiros. A propósito, uma curiosidade: Lofoten supostamente significa "pata do lince", referência ao formato do arquipélago (vejam no Google Maps).
Vale ressaltar que, apesar de ser um destino turístico, a infra-estrutura não é muito desenvolvida, justamente para não provocar impactos desastrosos no meio ambiente. Assim, mesmo na alta temporada (Junho-Agosto), os ônibus - único meio de transporte público - são escassos. Na baixa temporada, são mais escassos ainda, por isso o jeito é alugar um carro ou bicicleta. Quanto à acomodação, não esperem nenhum luxo, mas preparem a carteira. Entrem no clima e aproveitem um apartamento em uma casinha de pescador (palafita), muito simpáticos.
Para chegar ao primeiro vilarejo que eu visitaria, e onde eu dormiria, tive que enfrentar uma longa caminhada à beira da estrada. Foram cerca de 5 km, mais de 1h carregando minha mala. Mas foi menos cansativo do que parece. Eu me sentia nos Elísios, o paraíso. Foi essa a sensação que tive durante os três dias que passei em Lofoten. Tudo é muito tranquilo e bonito, um lugar excelente para descansar a mente. Minhas preocupações de retorno ao Brasil, a essa hora, estavam bem guardadas em meu córtex cerebral, sem me incomodar. Na verdade, elas só me incomodariam no aeroporto em Helsinki.
O nome do vilarejo em que comecei minha breve jornada pelas ilhas Lofoten é Å (pronuncia-se "ó"), que fica na extremidade sul do arquipélago. As casas em Lofoten são todas muito parecidas, geralmente coloridas em vermelho e azul, muitas delas construídas sobre a água, como era o caso do meu albergue. Em quase todos os vilarejos, há espécies de varais de madeira em que bacalhaus são pendurados na primavera, ficando lá até secar. Na época em que fui, eles já haviam sido retirados e o que sobraram eram apenas as cabeças, guardadas em alguns galpões. Para aqueles que sempre se perguntaram se bacalhau tinha cabeça, eis a resposta: sim, mas elas ficam em Lofoten!
Os bacalhaus, as palafitas, as montanhas e o mar formam um cenário muito bonito, que vocês podem ver abaixo.
(fotos)
Mesmo cansado, eu não queria ir dormir. Fiquei olhando as outras ilhas, as gaivotas e o sol se pondo atrás das montanhas dentadas, sentado à beira daquele mar gelado.
Ah, para quem estiver curioso, o Google Street View já cobre Lofoten. E aparentemente as fotos foram tiradas durante a época de secagem dos bacalhaus. Não é difícil encontrá-los: só há uma estrada perto de Å.

Arrivederci!!!

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