terça-feira, 7 de setembro de 2010

11/08/2010: Kiruna

Oi pessoal!

13º dia de viagem: sincronia, Sámi, mina, templo, atraso, noite.

Mais uma vez, tive uma boa noite de sono, livre de mochileiros barulhentos que lotam albergues de cidades maiores/mais turísticas. Livre também dos mosquitos, que eu tanto temia, famosos no verão da Lapônia.
Meu despertador tocou à mesma hora que do alemão maluco que pretendia ir a Nordkapp e aproveitamos para tomar café-da-manhã juntos. Sua refeição foi a mesma da noite anterior: cereal matinal (??); a minha foi torrada sueca com cream cheese. Depois, cada um seguiu seu rumo: ele em direção ao Norte; eu em direção ao Kiruna Samegård, um centro de exibição de cultura Sámi.
O centro é um pequeno museu, com informações diversas sobre o povo Sámi. Descobri, por exemplo, que eles foram perseguidos pela Igreja, que possuíam fazendas com zonas distintas para o cultivo nas diferentes estações do ano e que eles foram bastante importantes no projeto da mina da LKAB em Kiruna, uma vez que conheciam muito bem a região, antes por eles dominada.
(fotos centro Sámi)
O tempo continuava muito bom em Kiruna, com aquele sol de verão nórdico delicioso. Dava vontade de ficar sentado/deitado sob ele o dia todo. Mas a principal atividade do dia exigia que eu me escondesse dele um pouco. Uma das principais atrações turísticas de Kiruna é justamente o local que possibilitou a construção da cidade: a mina da LKAB.
Para visitar suas instalações, basta ir ao ofício de turismo e inscrever-se. O preço é um pouco salgado (como o da mina de sal de Wieliczka), mas para quem gosta de passeios "diferentes" e técnicos, acho que vale a pena. A quantidade de informações que se recebe durante a visita é muito grande, por isso o que passarei aqui é um resumão dos pontos que achei mais interessantes.
A LKAB (Luossavaara-Kiirunavaara Aktiebolag) é uma empresa estatal sueca que foi criada no final do século XIX especialmente para gerenciar a extração do minério de ferro das montanhas Luossavaara e Kiirunavaara (Aktiebolag significa LTDA), que se encontram na região de Kiruna. De acordo com registros, a atividade extrativista já existia anteriormente, mas foi só nessa data que o governo sueco percebeu o potencial econômico e decidiu gerenciar a atividade.
A LKAB não está entre os maiores produtores de minério de ferro do mundo, mas se exibe com a boa qualidade de seus pellets. Abro aqui um parêntesis para explicar um pouco sobre como se transforma "pedra" em ferro/aço (aproveito para recordar minhas aulas de PMI). Como devem saber, o ferro metálico, assim como a grande maioria dos metais, não é encontrado sozinho na natureza; geralmente ele aparece na forma de óxidos. Acontece que mesmo os óxidos não se encontram "puros": ele vêm junto a outros materiais minerais, sem interesse econômico, chamados de ganga. No processo de extração mineral, zonas de uma mina são fragmentadas (perfuradas, explodidas e removidas) e os fragmentos passam por etapas diversas até que seja obtido o minério praticamente puro. Este minério pode estar em diferentes formas, e uma delas são os pellets, que lembram bolinhas de gude (um pouco irregulares). Acaba aqui a etapa de mineração e se inicia a de metalurgia. Estes pellets são acomodados em um forno gigante (alto-forno), onde ocorrem diversas reações químicas (a "principal" é a de redução do óxido de ferro) e se obtém o "ferro". Antes de se chegar ao produto final, que pode ser ferro-gusa, aço carbono, aço inoxidável ou outros, ele ainda passa por outras etapas de processamento. Fecha parêntesis. A LKAB exibe-se com seus pellets por um motivo importante: dependendo de sua forma e, principalmente, de seu conteúdo (teor de ferro), o rendimento do processo pode mudar muito (vale lembrar que a indústria metalúrgica é um dos maiores consumidores energéticos e emissores de CO2 do planeta). No caso da LKAB, tanto a forma quanto o conteúdo são muito bons: ela diz que suas bolinhas de gude possuem o formato ótimo para a redução no alto-forno e a magnetita de que são compostos é, de fato, o mineral com maior teor de ferro encontrado na natureza (ela é também relativamente rara). Vocês devem estar cansados de tanta informação técnica, então vamos agora a algumas curiosidades sobre a mina de ferro de Kiruna.
Os suecos tiveram a sorte de encontrar em Kiruna uma espécie de monobloco de magnetita. Ou seja, a montanha Kiirunavaara é praticamente uma montanha de magnetita. Além disso, um fato que ainda não mencionei e que é bastante relevante é que a mina é subterrânea. Para leigos, pode parecer um pouco comum, mas quem conhece um pouco de exploração mineral sabe que minas de ferro geralmente são minas abertas, dada sua extensão. A decisão de explorá-la dessa forma foi pensada: a céu aberto, seria muito difícil explorá-la durante os 12 meses do ano, visto que faz muito frio e neva muito no inverno. Debaixo da terra, a temperatura é praticamente constante. Mas a exploração subterrânea está trazendo problemas à cidade. O avanço da produção (começa-se explorando as camadas mais superficiais e depois vão descendo) tem provocado o afundamento da cidade. Isso mesmo, Kiruna está afundando por causa da mina da LKAB. Não é muito difícil entender o porquê: conforme parte do solo é fragmentada e removida, a outra parte acaba "caindo" sobre ela. Abaixo vocês podem ver algumas fotos da visita, inclusive uma ilustrando o processo de afundamento da cidade.
(fotos LKAB)
Como eu já disse, a influência da LKAB em Kiruna é bastante forte. Normal, já que a cidade foi construída basicamente para os trabalhadores da mina. Por causa do afundamento, muitas famílias têm deixado a região, mas a empresa luta contra isso. Ela já planeja deslocar a cidade para um novo local em breve (só não se sabe quão breve) e sinto que os preços baixos do mercado são subsídios promovidos por ela.
De volta à superfície, fui visitar o interior da Kiruna kyrka. Não chega a ser tão impressionante quanto o exterior, mas não deixa de ser bem exótico. Possui um belo órgão, como já mencionei, e lembra uma tenda/armazém, por causa da estrutura toda em madeira.
Eu ainda tinha algumas horas antes de meu trem, mas já tinha visitado a cidade toda. Então fiquei enrolando, sentado sob o sol e lendo os informativos da LKAB que ganhara durante a visita (ganhei também um saquinho com um monte de pellets - que trouxe para o Brasil!)
Chegava a hora do meu trem, voltei à casa amarela e peguei minhas coisas. Desta vez, a gravidade me ajudou a chegar à estação de trem, onde descobri que meu trem estava atrasado. Mais pontos deduzidos da imagem da SJ frente à NSB. Fiquei um pouco preocupado pois tinha conexões, mas no fim deu tudo certo. Este trem era noturno, mas só pude entrar na minha cabine depois das 19h (muito complicado para explicar...resumidamente foi por causa de meu passe InterRail). Até lá, fiquei no vagão normal, onde aproveitei para jantar.
O pôr-do-sol foi particularmente bonito, daqueles avermelhados, e foi minha primeira noite em cerca de 10 dias. No dia seguinte, estaria de volta à zona temperada.

Bis bald!!!

Nenhum comentário: