terça-feira, 7 de setembro de 2010

12/08/2010: Leksand - Mora

Oi pessoal!

14º dia de viagem: despertador, pedinte, decepção, madeira, confusão, crianças, cavalos, esqui, sol.

Depois de uma relativamente confortável noite de sono em uma couchette, fui acordado por uma funcionária da SJ responsável por despertar todos os passageiros que têm conexões e que não vão até o ponto final do trem. Fiquei surpreso ao descobrir que o atraso inicial havia sido recuperado e feliz ao saber que não perderia minhas conexões.
Desci em Gävle às 7h10 em ponto e às 7h20 já estava no moderno trem que me levaria à região de Dalarna, no centro da Suécia. O trem lembrava aquele da Raumabanen, com apenas dois vagões, mas bem decorado. Às vezes não dava vontade de sair dos trens, de tão legais que eram...mas é verdade que eles não são perfeitos. Nesse trem, justamente, havia uma senhora (que embarcara comigo em Kiruna) carregando um bebê e pedindo em linguagem gestual um telefone emprestado. Questões sociais à parte, o fato é que não gosto de pedintes...
De Gävle fui até Borlänge e de Borlänge até Leksand, a primeira cidade da região que eu visitei. Eu já sabia que a cidade era pequena, mas decidi passar lá assim mesmo, já que eu tinha um InterRail ativo. Mas ela me decepcionou um pouco. Talvez tenha sido parte culpa do tempo nublado, mas os únicos pontos que achei interessantes foram a Leksands kyrka e um daqueles "postes" usados nas celebrações recentes do solstício de verão. Mas devo dizer que a Leksands kyrka é uma igreja bem interessante, com aquelas cúpulas aceboladas e com um cemitério ao redor (típico nos países nórdicos).
Como Leksand tinha deixado a desejar, decidi visitar Rättvik (a grande vantagem de um passe ilimitado é a flexibilidade), cidade antes de Mora, uma das maiores da região e onde ficava meu albergue. Achei Rättvik mais interessante, por vários motivos. Primeiramente, pela posição em relação ao Siljan, o lago principal da região de Dalarna. A cidade fica bem às margens e há inclusive uma estrutura muito interessante de madeira, uma espécie de píer que adentra uns 600 m no lago Siljan, no fim da qual há uma ilhota artificial com bancos e árvores. De acordo com as informações do folheto do ofício de turismo, é a mais longa estrutura de madeira do tipo na Escandinávia e suponho que tenha sido construída com o dinheiro de doadores cujos nomes estão gravados em cada uma das tábuas que constitui o píer.
Há também uma igreja simpática, com um bem-cuidado cemitério ao seu redor (eu sempre via pessoas cuidando das flores e plantas), à qual se chega depois de atravessar um camping. Nesses campings você vê uns trailers bem grandes, outros mais modestos, todos bem interessantes. Lembro de mais de um com uma tenda acoplada ao trailer, formando uma espécie de varanda onde as pessoas ficam sentadas comendo e conversando, abrigadas do vento frio, dos mosquitos e da chuva. A propósito, despedi-me de Rättvik sob chuva e correndo, pois deixara ingenuamente meu guarda-chuva na mala no ofício de turismo.
Para minha sorte, do outro lado do lago Siljian o tempo estava bem melhor e o sol foi aparecendo à medida que a tarde ia avançando. Cheguei em Mora na hora do almoço, e justamente por isso meu estômago mimado começou a reclamar. Mas antes de almoçar, fui deixar minhas coisas no albergue.
Bem, eu já não tinha gostado muito quando não consegui achar um endereço único, mas a confusão veio mesmo quando eu cheguei lá. Resumindo a história, o endereço era da casa onde ficava parte dos quartos (que não incluía o meu, obviamente), na porta da qual havia um péssimo mapa indicando onde ficava a recepção. Descobri o mapa somente depois de entrar na casa, procurar pela recepção e não achá-la. Depois de um pouco de imaginação e sorte, cheguei ao restaurante-bar onde funcionava também a recepção. Fiz meu check-in e a mulher me explicou como chegar à casa onde ficava meu quarto. Depois de mais um pouco de sorte, cheguei enfim ao meu quarto. Ele era muito bom, com banheiro exclusivo e uma cozinha bem equipada dividida com os outros poucos hóspedes. No fim das contas, fiquei sozinho no quarto.
Fui ao centro da cidade, bem agitado, onde comi uma salada muito boa, que ao contrário do que eu imaginava me satisfez muito bem (ok, tinha bastante frango no meio da salada), e de sobremesa tomei um sorvete de laranja também muito bom. Na rua central, há muitas lojas, restaurantes e bancos para se sentar. Lá fica a primeira H&M 100% sueca que eu vi, inclusive (H&M é uma loja como a C&A, um pouco melhor e bastante presente na Europa).
A Mora kyrka também possui um cemitério ao redor e encontrei, em seu interior, jovens usando seu órgão. Fiquei impressionado em encontrar "crianças" sozinhas usando o órgão na igreja da cidade, mas como acho que fiquei mais intimidado com elas do que elas comigo, imagino que não tinham más intenções.
Bem perto da igreja ficam o Zorn Museum e o Zorngården, respectivamente o museu dedicado ao mais célebre cidadão de Mora, o artista Anders Zorn, e sua casa. Infelizmente, quando cheguei ao museu descobri que faltava menos de uma hora para fechar, então decidi continuar a passear pela cidade e deixar a visita para uma próxima ida a Mora. Pelo menos, pude ver sua lápide (com um "Z" que lembra o do Zorro) e a de sua mãe (um belo retrato em bronze, que se estivesse no Brasil certamente já teria sido roubado) no cemitério da cidade.
Passei ainda por uma feira de coisas diversas (flores, livros, utilidades e inutilidades domésticas etc.) e comprei um cavalo de Dalarna. Esses cavalinhos são produzidos artesanalmente na região, pintados em cores diversas e custam uma fortuna (o meu, de uns 5 cm de altura, custou 130 SEK = 13 € = R$ 30). Eles estão espalhados por todo lado, como nos parques de diversão para crianças, nas portas de lojas e até na forma de arranjos de plantas.
Voltei então para o albergue, tomei banho, jantei e saí de novo, para aproveitar o sol que ainda estava bem alto. Dei mais uma volta pelo lago Siljan e passei pelo Vasaloppet Museum, dedicado à famosa corrida de esqui cross-country, que acontece anualmente e vai de Sälen até Mora (cerca de 90 km). Antes de terminar, um pouco sobre a história da corrida Vasaloppet. Ela foi criada em 1922 e tem seu nome em homenagem ao rei Gustav Vasa, que foi obrigado a fugir de Stockholm depois de seus pais e outros nobres suecos terem sido assassinados pelo rei Christian II (à época, rei da Dinamarca, Suécia e Noruega - a União Kalmar). Durante a fuga, passou por Dalarna e, em Mora, tentou convencer os locais a organizar uma rebelião. A proposta não foi aceita e ele não viu outra opção a não ser fugir para a Noruega. Ele estava em esquis, e quando chegou a Sälen foi abordado por locais que voltaram atrás e decidiram aceitar a proposta de Vasa, que em 1520 venceu Christian II, acabou com a União Kalmar e foi coroado rei da Suécia. Lembrem-se de Vasa, seu nome será mencionado novamente em breve.

Tschüss!!!



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