Oi pessoal!
12º dia de viagem: buffet, viking, mina, despedida, atraso, mão-dupla, 日本人, casa amarela, casas montadas, ausência, presença, templo, louco.
Minha última noite de sono na Noruega foi muito boa, em um quarto praticamente de hotel. O café-da-manhã também foi excelente, o melhor que eu tomei em muitos dias, com direito a buffet com pães, frios etc. Não vou dizer que foi uma surpresa, porque eu já esperava algo assim pelo preço da estadia, consideravelmente maior que o das outras cidades em que fiquei.
No café-da-manhã, tive um encontro inesperado com um alemão que esteve no mesmo albergue que eu em Stamsund (aquele que me emprestou a panela). Lembro de ter conversado com ele no dia anterior de manhã, saindo do albergue, e ele falara que precisava voltar à Alemanha no dia seguinte e não sabia direito qual o melhor trajeto. Fiquei impressionado com a falta de planejamento, principalmente quando se vai a um lugar tão longínquo e sem muita infra-estrutura. Meu caso era o extremo oposto, tanto que eu conhecia até alternativas a meus "planos A" para situações adversas. E foi assim que acabei ajudando-o, falando do aeroporto em Lofoten que ele poderia usar. Mas ele acabou não achando voos lá e teve que vir até Narvik.
Antes de deixar o hotel-albergue para meu city tour, uma dupla de turistas hispânicos, que ouviu nossa conversa sobre Lofoten, veio me perguntar sobre como chegar a Lofoten. Ele deram bastante sorte, pois à época eu era um expert em locomoção no arquipélago do bacalhau e acabava de vir de lá. Para ajudá-los, deixei meu livreto com os horários de todos os ônibus que circulavam na região.
Narvik é uma cidade bem peculiar, com ares bastante industriais herdados da ferrovia e do porto que escoam o minério de ferro da LKAB, empresa sueca de mineração. Como em Kiruna, dá para perceber que a cidade gira em torno da LKAB, com monumentos e construções referenciando a companhia. O nome Narvik é uma homenagem a um líder viking, que ocupou a região há alguns séculos.
A cidade fica em um dos mais setentrionais fiordes da Noruega, por isso dá para ver muitas montanhas ao seu redor, várias delas com neve nos picos. A primeira região da cidade que percorri foi perto de um lago, de onde se tinha uma boa vista dessas montanhas. Era uma região bem residencial, com casas bem bonitas e coloridas, todas de madeira.
De lá segui para a Narvik kirke, uma bela igreja de pedra que data de 1925, muito mais jovem do que parece. Sua torre é de um estilo bem recorrente nas igrejas nórdicas, paralelepípeda com uma espécie de agulha, como vocês podem ver abaixo. Infelizmente ela estava fechada, por isso não pude conhecer seu interior.
(foto Narvik kirke)
Não havia muito mais para se ver na cidade além da região central, onde fica a prefeitura, um prédio bem comum, como em Bergen. Na prefeitura, há vários monumentos em memória à 2ª Guerra Mundial, durante a qual a cidade foi tomada pelos alemães (muito espertos, queriam controlar o comércio de minério de ferro durante a guerra), como um pedaço de pedra que veio do ponto zero de Hiroshima (imagino que tenha sido descontaminado).
(foto pedra Hiroshima)
Há também um obelisco espelhado, um anfiteatro construído pela LKAB, várias estátuas engraçadas (como a de uma mulher carrancuda que não deixa ninguém sentar no seu lugar no banco da praça), uma fonte e um poste com placas indicando distâncias para lugares diversos. Eu estava a apenas 2407 km do Polo Norte, 3189 km de Paris e 512 km da casa do Papai Noel! Depois deste breve city tour, peguei minhas tralhas e fui para a estação de trem, despedindo-me da Noruega.
(foto placas distâncias)
A ferrovia que liga Narvik a Kiruna, na Suécia, é utilizada pela SJ, empresa sueca de trens, e não pela NSB. Neste meu primeiro contato com a SJ, o trem já atrasou. Bastante até, para os padrões nórdicos. Mais tarde, durante o percurso, percebi uma das causas: a linha é de "mão única" na maior parte de sua extensão e os trens de passageiros da SJ dividem os trilhos com as zilhares de toneladas de minério de ferro que os trens de carga levam ao porto da LKAB em Narvik. Mas eu estava de muito bom humor (nem preciso dizer que o tempo estava excelente), tinha bastante tempo para conhecer Kiruna e as paisagens eram muito bonitas. Inclusive uma das paradas é em Abisko, um parque nacional muito famoso, onde pessoas fazem trilhas em meio a nuvens de pernilongos. Eu estava oficialmente na Lapônia (para minha sorte e alívio, não vi um pernilongo durante minha estadia em Kiruna - vantagens da cidade grande). Em Abisko, só vi entrar várias pessoas com mochilões e roupas de quem faz trilha, incluindo alguns japoneses, que estão entre meus turistas favoritos (eles são muito engraçados).
Como eu disse, o percurso, que dura cerca de 3h, é muito bonito, passando por montanhas cobertas de vegetação e lagos. Lembro de dois homens meio malucos conversando em uma língua que não reconheci, de pé ao lado da janela completamente aberta (imaginem a ventania dentro do vagão...) e com binóculos e uma máquina fotográfica bastante arcaica (das de filme). As estações eram todas muito parecidas, construídas pela LKAB com intuito mais industrial. Como estávamos no meio do nada, não havia muita gente que descia/subia nessas estações.
Cheguei em Kiruna com 30 min de atraso acumulado, mas de bom humor provocado pelo belo céu azul. Não vou dizer que estava quente, porque não estava. Em Kiruna, mais ainda que nos outros lugares, percebi a diferença entre estar sob o sol e estar na sombra com vento. Sem exagero, a sensação térmica varia uns 15ºC (de 10ºC a 25ºC).
Infelizmente, a estação de trem em Kiruna fica no nível baixo da cidade, o que significa que tive que subir uma montanha com minhas malas. No trajeto até o albergue, fui criando minha primeira impressão da cidade: pacata, bonita, com bastante natureza e ao mesmo tempo forte influência da LKAB. Deixei minhas coisas no albergue, uma "casa amarela" bem aconchegante, e fui passear.
As construções em Kiruna são bem coloridas e algumas delas parecem de brinquedo. Notei também que a cidade é um pouco vazia (algo que será em partes explicado em breve), com pouco comércio e forte presença da LKAB, seja em monumentos à mineração, em patrocínios, no notável relógio da prefeitura, na casa de campo de seu fundador ou mesmo implicitamente na belíssima Kiruna kyrka, igreja construída pela LKAB.
Esta igreja é uma das construções mais belas que já vi. Inspirada no estilo do povo Sámi (povo original da Lapônia), de longe ela pode parecer uma construção vermelha qualquer, mas quando se aproxima dela, pode-se ver que ela foi feita encaixando-se "tijolos" de carvalho. Adornam a fachada algumas esculturas douradas, um painel representando uma cena bíblica sobre o portão de entrada principal. Neste dia, ela estava fechada para visitação, mas felizmente pude checá-lo no dia seguinte. Como de praxe, sentei em um banco em frente a ela e cansei minha retina, ao mesmo tempo que me bronzeava (de moleton) e que tomava um lanchinho.
O último lugar que efetivamente visitei nesse dia foi a Stadhus (prefeitura). Com seu belo e peculiar relógio em ferro (com direito até a badaladas), a fachada decepciona um pouco. Mas o interior compensa, e muito. Ela é praticamente um museu aberto a quem quiser entrar (ou melhor, a quem tiver cara-de-pau - como eu - de abrir a porta e entrar). Ele distribuem até folhetos explicativos sobre as poucas, mas simbólicas obras que abriga, como uma enorme tapeçaria, várias telas retratando a cidade sob diferentes aspectos (do trabalhador, da natureza etc), uma obra em madeira de autoria Sámi etc.
Antes de voltar ao albergue, comi deliciosas e gordas pâtisseries suecas, sentado na praça central e observando as pessoas suecas, e enfim fui ao mercado comprar meu jantar e suprimentos para os dias seguintes. Alguns dias depois, eu iria notar que os preços em Kiruna eram mais baixos que nas demais localidades do país. Algo estranho, se pensarmos em quão longe a cidade fica dos maiores centros distribuidores (Stockholm, por exemplo), mas que penso ser devido subsídios promovidos pela LKAB. Tudo fez sentido no dia seguinte, quando fiz um daqueles passeios que entram para a memória e de lá não saem mais, como a mina de sal em Wieliczka.
No albergue, conheço meu colega de quarto, mais um alemão (para não se enganarem, encontrei franceses no supermercado). Ele me pareceu bem doido, saiu da Alemanha com o intuito de chegar a Nordkapp, sem nenhum plano (ele era averso a planos). Conseguiu chegar a Kiruna de carona (???) e de lá, ainda não sabia direito que caminho tomar.
À plus!!!
Nenhum comentário:
Postar um comentário